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O desenho
O desenho habita
a fronteira entre o visível e o invisível. Uma
idéia, imagem ou emoção que se constrói
com sinais gráficos, expressando forma, peso, direção,
luz e localização no espaço.
Desenhar fica no limite entre o imaginar e o fazer, o pensamento
e o sentido mesclando estados sensíveis, anímicos
a dimensionamentos de escala, proporção e ritmo
até configurar uma forma, um registro visual através
do gesto.
Há quem considere o gesto como ato narcisístico
do artista. Eu vejo nele um exercício de individualidade
que pode ser de extremo interesse e riqueza.
Quem desenha assina seu nome: Eu sou assim, vê? Desenhei
isto, deste jeito. Esta é minha assinatura. Exerço
minha potência desenhando o que me transborda.
Ato unificador do pensar/sentir/ser, o desenho opera em gestos
às vezes seguros e assertivos, às vezes titubeantes
e escorregadios, gerando uma verdadeira "escrita/música"
da imagem, capaz de expressar tantos timbres, formas, inflexões,
nuances, ênfases, silêncios quantos couberem em nossa
alma.
Em muitos rituais mágico-religiosos desenha-se no chão
para invocar ou exorcizar espíritos, buscando acesso direto
ao inconsciente. Joseph Beuys acreditava que o desenho serviria
de passagem para estados onde o invisível poderia ser
visto. "Ele tenta", dizia ele, "se apropriar daquele
estado, visualizar de que modo as forças se compõem,
dando forma a configurações invisíveis mas
se referindo também a configurações visíveis."
Se o desenho fica nesse território entre idéia/pensamento
e forma/matéria, faz sentido reconhecer sua possível
afinidade com a escultura, sua função de ponte
entre o plano da idéia ou da imagem pensada ou sonhada
e a forma materializada no espaço.
A escultura existe no mundo real - é feita de matéria
deste mundo; o desenho, por sua vez, ocupa uma posição
mais ambígua, entre o imaginário e o real, entre
o mundo dos sonhos e das memórias e o mundo da matéria,
da sensação física e da dor.
A observação de um registro de linhas formando
um desenho numa folha de papel solicita mais do meu pensamento
e da minha emoção do que propriamente de meu corpo.
Se os escultores hoje podem ser chamados de poetas-filósofos,
então é no desenho que nascem seus pensamentos.
É por meio do desenho que eles e nós podemos aceder
ao contínuo, ao fluxo do inconsciente.
Ao iniciar em 1987 uma série de gravuras obtidas através
da impressão de recortes de cobre com imagens gravadas
passei a "tridimensionalizar" as imagens de meu repertório,
tornando-as autônomas e independentes.
Essas imagens,anteriormente gravadas numa única matriz
retangular ou quadrada adquiriram outra dimensão, outro
status de "forma" ao serem recortadas. Saíram
do campo definido pelas dimensões da chapa-matriz onde
eram gravadas e adquiriram a condição de "objetos".
Outra questão que me interessou foi a da materialização
da linha como elemento concreto a ser impresso. Ao dar forma,
modelar ou desenhar essas linhas metálicas, percebi que
já estava operando no plano do corpo-objeto. Incluí
nessa série matrizes impressas sem tinta apenas como relevos
secos gerando marcas no papel. Tais gravuras sugerem sensações
táteis em meio a ocorrências tonais sutis, o baixo-relevo
reforçando o interesse pelo corpo da matriz recortada,
que ali deixa um rastro de presença, em forma de marca
ou pegada.
O relevo como modalidade habita também esse mesmo campo
entre o plano e o tridimensional, os contornos da forma e sua
passagem para o corpóreo. Para o observador, a melhor
condição de fruição e leitura dessas
gravuras talvez seja aquela em que ele fica confortavelmente
sentado, com a gravura apoiada num plano inclinado. Meu ponto
de vista aqui é frontal em relação à
gravura, evitando distorções de ângulo.
Na evolução desse processo acabei naturalmente
trazendo essas ocorrências e experiências da gravura
para escalas maiores, as quais propunham outro espaço
e suporte. Assim, o que era linha de arame virou tarugo ou até
mesmo tubo de metal, dotados de mais peso visual e densidade
de matéria. As chapas passaram a ser mais espessas e os
recortes mais amplos, ganhando extensão. O campo a ser
ocupado passou a ser a parede, o chão, ou ambos.
"Desenhos-concretos" ou "esculturas-desenho",
essas obras falam da escultura (como construção
do espaço, não como retirada de matéria)
e do desenho enquanto linguagem de representação
de imagens através da linha.
A mente e o corpo, o desenho e a escultura. Meu corpo confrontando
o objeto numa representação mais tangível
do que num desenho, porém ainda pertencente ao universo
da poética do desenho. Entro por aquela porta atrás
da qual há uma escada?
O fio condutor da linha, agora concreta e metálica, definindo
espaços e criando o dentro e o fora, o próximo
e o distante, o alto e o baixo, a coisa.
A ilusão e a realidade lado a lado, desafiando minha percepção;
provocando, seduzindo, distanciando ou convidando meu corpo a
se engajar em possibilidades de leitura, deciframento
ou aceitação de mistérios e enigmas.
Setembro, 2001
Arnaldo Battaglini |